Cerca de 1% da população portuguesa sofre de perturbação bipolar. É uma doença que altera as emoções de tal forma que pode conduzir à perda do emprego, à perda das ligações familiares e sociais, ao divórcio, ao suicídio e ao sofrimento dos doentes e suas famílias. A Depressão não é causada por uma fraqueza pessoal, ou por falta de controlo - é uma doença que pode ser tratada com fármacos e psicoterapia em simultâneo, sendo esta última essencial ao processo de tratamento.
Estima-se que 25 a 30% das pessoas com sintomas da perturbação bipolar não estejam ainda diagnosticadas, até porque muitos doentes se recusam a aceitar ajuda médica, sobretudo quando se encontram na fase de euforia.
O diagnóstico da perturbação bipolar não se faz por vezes na altura própria. Mesmo que simplificado, o reconhecimento das peculiaridades da pertubação bipolar diminuem a frustração dos doentes e dos que os rodeiam, possibilitando uma melhor qualidade de vida através de tratamento médico e psicoterapeutico adequado. A família e os amigos aprendem a reconhecer as oscilações do humor, pois a pessoa nega que esteja errada.
A perturbação bipolar é uma doença psiquiátrica conhecida por Perturbação Maníaco-Depressiva. É caracterizada por elevadas alterações do humor, com crises repetidas de depressão e de “mania”. Estas perturbações são repercutidas nas sensações, emoções, ideias e comportamentos, com consequências para a saúde e para a personalidade.
Uma crise pode durar alguns dias ou vários meses. Os períodos de estabilidade entre crises podem durar dias, meses ou anos. Também a previsão das crises varia consoante a pessoa. Umas terão uma ou duas crises durante a vida, outras caem repetidas vezes em certas alturas do ano (caso não faça tratamento) e há ainda outras que têm mais do que quatro crises por ano, são os ciclos rápidos.
A doença pode começar durante ou depois da adolescência, especialmente entre os 20 e os 30 anos e afecta ambos os sexos em percentagem idêntica.
Fase maníaca
A “mania” manifesta-se em estados de humor elevado, eufórico ou irritável. A pessoa sente-se alegre, altiva, sociável, inteligente e criativa. A elevação progressiva do humor e a aceleração psíquica podem trazer consigo alguns ou todos os sintomas:
* Irritabilidade extrema (a pessoa torna-se exigente quando os outros não pactuam com as suas vontades);
* Crença não realista das suas capacidades e poderes;
* Capacidade de julgamento pobre;
* Comportamento provocante, inoportuno e agressivo;
* Negação do óbvio, de que está errado;
* Energia elevada (hiperactividade), reduzindo a necessidade de sono e aumentando o abuso de álcool, medicamentos e drogas para dormir;
* Auto-estima elevada;
* Repentinas e imprevisíveis alterações emocionais (a fala é rápida, mudança frequente de assunto, nunca acabando o primeiro, os pensamentos aceleram-se);
* Reacções excessivas e interpretações erradas de acontecimentos, irritação e dificuldade de enfrentar comentários banais;
* Dificuldade de assimilar ideias, transmitindo-as de modo errado;
* Maior interesse por diversas actividades;
* Aumento da vontade sexual;
* Não reconhecimento da doença, tenta recusar o tratamento;
* Culpar os outros pelo que ocorre de mal, inclusive pela própria doença;
* Perda da noção da realidade;
* Incoerência de actos.
Fase depressiva
A depressão manifesta-se pela tristeza e pelo desespero. Deste modo, os sintomas são:
* Obsessão com pensamentos negativos, não conseguindo afastá-los;
* Preocupação com fracassos ou incapacidades;
* Sentimentos de inutilidade, culpa excessiva;
* Perda de interesse ou prazer em actividades quotidianas (trabalho, hobbies, pessoas, familiares, amigos e sexo);
* Pensamento lento, esquecimento, dificuldade de concentração e em tomar decisões;
* Perda de energia, sentimento de fadiga ou agitação e inquietação;
* Preocupação excessiva com queixas físicas;
* Alterações do apetite e do peso;
* Dificuldades em dormir, ou dormir excessivamente;
* Choro fácil ou vontade de chorar sem ser capaz;
* Pensamentos repetitivos de morte ou suicídio;
* Uso excessivo de bebidas alcoólicas ou de outras substâncias.
Podem existir crises mistas, de depressão e de “mania”. É o caso da Depressão Tipo I. O tipo II não apresenta episódios de mania, mas de hipomania com depressão (crises depressivas graves e fases leves de elevação do humor). Há uma tendência para os pacientes fazerem várias crises de um tipo e poucas de outro; há doentes bipolares que nunca tiveram fases deprimidas e há deprimidos que só tiveram uma fase maníaca enquanto as depressivas foram numerosas. A depressão e a “mania” graves podem ser acompanhadas por períodos de psicose que incluem alucinações (sentir, cheirar, observar coisas que não existem) e delírios (falsas crenças baseadas no ilógico, apesar da existência da evidências do contrário).
O melhor conhecimento, reconhecimento da doença e dos aspectos gerais de tratamento visam permitir uma colaboração mais activa entre todos (doente, família, médico psiquiatra, médico de família e outros técnicos de saúde). Trata-se da sua saúde e da sua vida.
Causas
As causas são multifactoriais. Uma infância pobre em afectos, mudanças e perdas afectivas, insegurança estão na base da génese da perturbação bipolar. Depois existem várias teorias biológicas e genéticas que apontam para a mudança química que existe no cérebro aquando das crises. Sabemos que as adversidades da vida, constantes e intensas, vão trazendo ao sujeito graves prejuízos ao nível da sua vida afectiva. Ao longo do tempo a química cerebral modifica-se e cada vez surgem mais episódios de bipolaridade. Quanto mais tempo passa mais difícil se torna estabilizar o humor. Há que ter em atenção as fases agudas e a estratégia de prevenção das crises. Depois de uma crise um doente volta ao normal, pelo que é necessário prevenir as crises.
Tratamento
Os tratamentos farmacológicos disponíveis (estabilizadores do humor, antidepressivos e antipsicóticos) e a psicoterapia reduzem o sofrimento causado evitando as complicações devastadoras. O médico psiquiatra pode levar algum tempo até conseguir o tratamento adequado ao paciente. A Psicoterapia, o diálogo sobre as emoções e a depressão com um profissional qualificado, em associação com o tratamento farmacológico, proporciona suporte, educação e orientação para o doente e sua família. Tenta conseguir a obtenção de novos comportamentos através da elaboração das emoções. No caso da perturbação bipolar é necessário uma intervenção conjunta de medico psiquiatra e psicoterapeuta.
