TRISTEZA, DEPRESSÃO E EXPERIÊNCIA INFANTIL.....

"O afecto correspondente à melancolia é o luto ou pesar, ou seja, o anseio por alguma coisa que se perdeu". Sigmund Freud (1895)

A tristeza é uma reacção normal e saudável a qualquer infortúnio. A maioria, se não todos, dos episódios mais intensos de tristeza é provocada pela perda, ou pela previsão da perda, seja de uma pessoa amada, de lugares familiares e queridos, ou de papéis sociais. Uma pessoa triste sabe quem (ou o que) perdeu e anseia pelo seu retorno. Além disso, provavelmente buscará ajuda e consolo em algum companheiro em quem confia e, em alguma parte da sua mente, acreditará que com o tempo e assistência conseguirá recuperar-se, ainda que apenas em parte. Ainda assim, por vezes poder-se-á sentir deprimido durante algum tempo. A pessoa mentalmente sadia consegue atravessar fases de depressão e desorganização, delas saindo, depois de um período não excessivamente longo, com o comportamento, pensamento e sentimento já em vias de reorganização para interacções de um novo tipo. O senso de competência e o valor pessoal (auto-estima) permanece intacto e o sujeito prossegue a sua vida.

O que explica então os graus mais ou menos intensos de desespero que são característicos dos distúrbios depressivos, e o sentimento de abandono, de rejeição e de desamor, experiementados com tanta frequência pelos pacientes como tantos autores desde Freud tem vindo a descrever?

Seligman (1973) chama a atenção para as razões pelas quais uma pessoa, tendo sido frequentemente mal sucedida na solução de certos problemas, sente-se desamparada e, mesmo quando enfrenta um problema que tem capacidade de resolver, tende a não fazer qualquer tentativa nesse sentido. Se tentar, se tiver êxito, ainda assim pode considerar esse êxito como simples sorte. Esse estado de espírito, que Seligman designa como “desamparo aprendido”, é responsável, segundo ele, pelo desamparo presente nos distúrbios depressivos.

Na maioria das formas dos distúrbios depressivos, inclusive o luto crónico, a principal questão em relação à qual uma pessoa se sente desamparada é na sua capacidade de estabelecer e manter relações afectivas. O sentimento de desamparo pode, nesse caso, ser atribuído às experiências vividas pela pessoa na sua família de origem durante a infância e que provavelmente continuam até uma fase adiantada da adolescência. Temos assim
três tipos de experiências:

1 - É provável que a pessoa tenha passado pela experiência amarga de nunca ter estabelecido uma relação estável e segura com os seus pais, apesar de ter feito repetidos esforços para isso, inclusive de se ter esforçado ao máximo para atender às exigências deles e talvez também às expectativas pouco realistas que tenham formulado a seu respeito. Essas experiências infantis fazem com que a pessoa desenvolva uma acentuada tendência a interpretar qualquer perda que possa sofrer mais tarde como mais um dos seus fracassos em estabelecer e manter uma relação afectiva estável.

2 - É provável que, muitas vezes, tenham dito à pessoa na sua infância, que ela era indigna de ser amada ("Portaste-te mal, não gosto de ti!"), ou incoveniente ("Não chateis, sai daqui!"), ou incompetente ("Já partiste isso, não tens jeito para nada!"). Se passou por essas experiências de forma continuada desde a infância até à adolescencia, poderá ter desenvolvido um modelo de si mesmo de ser uma pessoa indigna de ser amada, indesejada, e de um modelo de figuras de apego (pais ou substitutos) como sendo inacessíveis, ou rejeitadoras e punitivas. Sempre que uma pessoa sofre uma adversidade, longe de achar que os outros podem ajudá –la, espera deles hostilidade e rejeição. A maioria das pessoas sujeitas a estes modelos deprimem ainda durante a infância e a adolescência, são o caso dos meninos “hiperactivos” ou dos adolescentes com maus resultados escolares e a caminho da delinquência.

3 - Num terceiro caso, houve mesmo uma perda real de um dos progenitores ou dos dois durante a infância, acarretando-lhe experiências muito desagradáveis ao nivel da segurança afectiva (retirada das familias, adopção, entrega a familias de acolhimento, abandono e morte dos pais) quando as figuras substitutas não conseguem ser afectivas e seguras para que a vinculação se estabeleça novamente.

O contacto com experiências dos tipos aqui descritos, contribui para explicar o desânimo aprendido da pessoa deprimida. Só uma nova experiência de vinculação a alguém que seja seguro, poderá ser reparadora. Essa experiência tem que ser no âmbito da psicoterapia. O procurar ajuda atempadamente poderá minimizar de imediato um sofrimento inimaginável para as pessoas sadias. Daí a dificuldade da família em perceber na maioria das vezes os sentimenos e o comportamento das pessoas deprimidas. No caso das crianças e adolescentes, quanto mais cedo iniciar uma psicoterapia, mais probabilidades têm de na adultez virem a ter uma vida normal e sem sofrimento. No caso dos adultos, ao fim de algumas sessões, o alívio dos sintomas tende a instalar-se e as melhorias na qualidade de vida surgem dia-a-dia. No entanto nem todas as pessoas deprimidas procuram ajuda, precisamente pelo “desânimo aprendido”, então se as figuras da sua infância não o souberam amar (não significa que não tenham amado, foi a leitura que a pessoa fez, mas no entanto por vezes não amaram mesmo), como é que a relação terapêutica pode ser boa e reparadora? Neste caso o papel dos familiares é fundamental. Quando a pessoa precisa de ajuda e resiste a ir a uma consulta de psicologia clínica, os familiares poderão marcar consulta em conjunto (pais/filhos pequenos ou adolescentes, maridos/esposas, etc.), sendo a consulta para a família, deixando ao psicoterapeuta a tarefa de “convencer” a pessoa a iniciar um tratamento. Volto a referir que os medicamentos antidepressivos só em algumas situações se aplicam e que só a psicoterapia ajuda a resolver o problema. O que acontece, na maioria das pessoas deprimidas, são a frequência de consultas de psiquiatria só com intervenções farmacológicas e um arrastar da doença anos a fio nas mãos de profissionais, ou mal informados, ou a acreditarem que resolvem tudo. Cabe à família muitas vezes, encaminhar os doentes incapazes de tomarem uma decisão, porque assim o aprenderam quando lhe foi incutido um sentimento de inutilidade e de incapacidade.

A DEPRESSÃO INFANTIL.....

Muitas das crianças que surgem em consulta psicológica apresentam como pano de fundo, depois de alguma investigação por parte do psicólogo ou psicoterapeuta, uma depressão, mascarada quase sempre por outros sinais que confundem a família. Existem diferentes causas para que este problema apareça e algumas delas nem são importantes, pois podem ser apenas reacções momentâneas a perdas exteriores próprias do desenvolvimento normativo e que desaparecem em pouco tempo; e outras vezes, na sua maioria, são acontecimentos de vida traumáticos ou falhas narcísicas (falta de auto-estima) que permanecem desde tenras idades. Muitas destas crianças tem um sentimento de rejeição interiorizado (“nasci por um descuido dos meus pais”) ou (“ninguém gosta de mim”) e sentem sempre que não prestam e que são pessoas ruins. Estes acontecimentos de vida sentidos como traumáticos, quase sempre lidos dessa forma pela criança, como tal, foram vividos e interiorizados assim e nem sempre percebidos pelos pais que quase sempre ficam surpresos e culpabilizados pelos factos que colocaram os filhos com problemas emocionais. A expressão dos afectos depressivos manifesta-se de várias formas/sintomas: alterações alimentares e do sono, sobretudo perda de apetite e insónia; perturbações do controle dos esfíncteres (chichi de noite e cocó de dia nas cuecas); dores de cabeça e abdominais sem causas físicas; dificuldades de aprendizagem escolar, muito frequentes e confundidas com défices cognitivos; alterações de comportamento, sobretudo instabilidade, hiperactividade e agressividade; furtos e mentiras repetidas. Existe uma forte ligação entre a depressão e a capacidade de uma criança reter conhecimentos na escola e sobretudo na capacidade de pensar. A agressividade tem a ver sobretudo com a incapacidade de mentalizar o sofrimento. A depressão infantil tal como nos adultos não passa por si e com ingestão de medicamentos. É necessária uma intervenção psicoterapêutica, pois caso não seja tratada traz sérios prejuízos na saúde mental da criança e consequências na vida adulta.

O LUTO: A DOR DA PERDA.....

A dificuldade em encarar o fim da vida, como parte da existência é o que faz do luto uma experiência tão assustadora. Desde a infância, o ser humano é treinado para não perder e, ao invés de se trabalharem também as perdas, porque fazem parte da vida (continuamente perdemos e ganhamos), incentivamos as crianças a ganhar e acumular ganhos. Os pais protegem os filhos de frustrações e perder é essencial para entender que nada na vida é permanente. Na infância perdemos jogos, objectos e até pessoas (normalmente os avós). Assim, a preparação para encarar a morte de forma menos traumática é possível e começa na infância. As crianças podem ir aos funerais e devemos dar respostas honestas (sempre adequadas à idade) acerca da morte, em vez de respostas fantasiosas, como a de que a pessoa foi para o céu, viajou ou tornou-se estrela. No dia a dia é preciso falar das perdas como parte da vida. Ensinar as crianças sobre a finitude ajuda a objectivar a existência, reduzindo a angústia existencial.

Os sintomas do luto são divididos em fases: choque, negação, raiva, depressão e aceitação. Neste processo a pessoa experimenta desinteresse pela vida, culpa, angústia e revolta. A duração e a intensidade desses sentimentos, vão depender do histórico de perdas da pessoa e também do grau de relação com quem morreu (a perda mais dura é a de um filho, pois quebra um ciclo ilusoriamente lógico) e ainda do tipo de morte. Nas mortes traumáticas, acidente, suicídio, assassinato, pode haver uma fase de negação mais prolongada e a culpa e a revolta podem aparecer com mais intensidade.

Para superar o luto é importante não sublimar a dor, ou seja, canalizar a energia para algo que distraia da dor. A pessoa tem que mergulhar na dor, chorar e manifestar o seu sofrimento. Faz bem à família reunir-se e falar sobre a perda, ver fotografias, recordar situações. Os rituais também ajudam, porque a recuperação é centrada na aceitação da perda.

O velar o corpo e o funeral são um ritual que permite elaborar a perda, despedir-se da pessoa. Quando não existe corpo para fazer o funeral a perda é muito mais difícil de elaborar, conduzindo a sofrimentos muito prolongados que exigem a intervenção de profissionais. O período de luto corresponde à fase em que a falta da pessoa é sentida em casa dura algum tempo. A pessoa não aparece e a dor piora. É vista e sentida em lugares que era hábito estarem. Há hora que chegava e metia a chave na porta, continua a existir a sensação que uma chave entrou na fechadura. Essas sensações vão desaparecendo à medida que a pessoa vai aceitando a perda. É nesta fase que pode existir uma tentativa de resgatar a vida anterior à perda. Mantém-se a roupa no armário, guardam-se todos os objectos da pessoa e em certas famílias impõe-se o tabu. Outros desfazem-se de todos os pertences do falecido, na tentativa de se livrarem da dor com mais rapidez. Para alguns, passa a ser proibido tocar no assunto. Muita gente muda de casa, de profissão e adopta causas viradas para a relação de ajuda como forma de sublimar a dor.

O facto de a pessoa mudar de casa ou de profissão não faz com que a perda e o sofrimento desapareçam. Estas atitudes funcionam como curas geográficas, mudam de sítio e o sofrimento é recalcado, impedindo a pessoa de reviver/recordar, processo fundamental à elaboração da perda e aceitação da morte.

De uma forma geral leva-se um a dois anos a “elaborar a perda”, depende da capacidade de resiliência da pessoa, ou seja, da forma como cada um lida com os problemas e o sofrimento. Durante esse período vão acontecer as datas importantes (natal, aniversários, etc). Se os sintomas de luto persistem passado algum tempo para além do razoável (cinco, seis e mais anos), é provável que a pessoa não esteja vivendo as etapas do luto necessárias para ultrapassar a perda. O processo considerado “anormal” tem duas reacções opostas: ou a pessoa não sai do luto (a mãe que arruma o quarto do filho, põe a mesa para ele, etc.) continuando a preservar o morto, numa atitude de mumificação e negação como é óbvio, não saindo daquela fase inicial; ou então a pessoa nem sequer entra no luto (fica indiferente, não chora, age como se nada tivesse acontecido). Nesse luto adiado, a dor fica guardada em algum lugar e um dia vem à superfície emergindo sob outra forma, normalmente de depressão. Quando se avalia a história de vida da pessoa (pode até ter passado dez, vinte ou mais anos), encontra-se um luto por elaborar, confundido com a depressão muitas das vezes e com uma vida cheia de antidepressivos que apenas servem de rolha (impedem o sofrimento de fluir) nestes casos. É aqui que a ajuda de um psicólogo clínico é fundamental, para ajudar a pessoa a elaborar a perda.

A HIPERACTIVIDADE INFANTIL: SINTOMAS OU PATOLOGIA?.....

Hoje em dia é muito frequente ouvir-se dizer que uma criança é hiperactiva nos mais variados contextos, escolar, familiar e social. Pois bem, importa saber o que é a hiperactividade e que sintomas apresenta.

A hiperactividade manifesta-se através de vários sintomas e características, como por exemplo, a presença de uma instabilidade constante em que a criança não consegue estar quieta, mostra-se desastrada, levanta-se na aula, fala sem parar, interrompe, não se consegue concentrar e manter a atenção, não consegue estar muito tempo a ver um vídeo ou a fazer tarefas escolares, não espera pela sua vez, tem dificuldade em controlar as emoções, enfurece-se com facilidade.

As causas para este distúrbio são várias, indo desde a hipótese genética e neurofisiológica até as teorias que encontram explicação nas vivências da criança desde o seu nascimento, nomeadamente na relação com os pais, ou substitutos. Para a primeira e segunda hipótese, os estudos não são conclusivos, sugerem uma explicação mas não a demonstram. Na hipótese neurofisiológica, os estudos sugerem uma disfunção cerebral derivada de lesão no sistema nervoso central. A eficácia do metilfenidato vulgo “Ritalina”, em alguns casos, é motivo para não se pôr de parte esta hipótese. É possível que a origem da hiperactividade seja multifactorial, ou seja, genética, neurofisiologica e psíquica, no entanto o que a prática clínica demonstra é uma realidade bem diferente na maioria dos casos.

Maurice Berger, Pedopsiquiatra e Psicanalista francês que acompanhou 60 crianças e respectivas famílias durante longo tempo, desde 1978 até aos dias de hoje num estudo longitudinal conclui que, sem excluir eventuais factores neurofisiológicos, este trabalho permitiu descriminar vários subgrupos de crianças instáveis ou com hiperactividade, em função da sua história familiar e relacional precoce, o que possibilitou encontrar uma verdadeira patologia do movimento. Assim, foi encontrado nas histórias de vida destas crianças, relações muito prejudicadas ou insuficientes com a mãe, pais imprevisíveis nas suas interacções com a criança, pais com um grau de exigência muito grande em relação à criança, pais que impõem a sua vontade à criança de uma forma incondicional, mães deprimidas numa fase precoce aquando do nascimento da criança, mães instáveis e nervosas, crianças sem limites educacionais a quem os pais deixam fazer tudo. É de salientar no estudo que as crianças sem lesão neurofisiológica não apresentavam melhoras quando lhes era administrado o medicamento. Este estudo refere ainda que a percentagem de crianças com hiperactividade resultante de lesão no sistema nervoso central é de apenas 5%, nos casos observados. Assim, grande percentagem desta afecção é de origem emocional e referente ao ambiente relacional em que a criança cresceu (como refere Imidio Salgueiro, psicanalista português, na sua tese de doutoramento em 2002).

O facto das crianças nada poderem dizer acerca da sua instabilidade, leva a que se levantem inúmeras hipóteses que não as favorecem, conduzindo, muitas vezes, a diagnósticos demasiado óbvios, pois tudo parece encaixar nos sintomas. O que não encaixa, é que a história pessoal de cada um é diferente, logo, as causas são diferentes e os sintomas por certo também. Assim, podia-se evitar medicar as crianças, pois nem todas beneficiam dos efeitos da terapêutica, sendo de investir em psicoterapia para a criança e apoio psicopedagógico para a família, colmatando também de algum modo as falhas que ficaram por preencher ao nível do seu psiquismo e das suas emoções frágeis e instáveis.

Um alerta para pais e técnicos. A hiperactividade numa criança, nem sempre é óbvia, ou seja, por traz da instabilidade poderão estar outros problemas. Embora seja mais fácil perceber e aceitar um diagnóstico de hiperactividade, do que outro, baseado nas relações e interacções do meio relacional da criança, que coloca em causa o papel da família nomeadamente dos pais, será conveniente pensar antes de deixar medicar e rotular uma criança. Culpabilizar os pais também não serve de nada. Apenas gera mais instabilidade. Cabe aos psicólogos, enquanto profissionais da saúde mental, o papel de ajudar pais, técnicos e crianças a ultrapassar as angústias dessas falhas, para que se diluam no tempo a bem da saúde mental das crianças desta geração e das que se seguem.

A ENURESE NOCTURNA: O TERROR DOS PAIS E DAS CRIANÇAS.....

O fazer chichi na cama tem um nome técnico: enurese nocturna. O termo deriva da palavra grega “fazer água”. As crianças mais novas levam algum tempo até conseguirem controlar os esfíncteres de dia e cerca de um ano depois desse controlo diurno conseguem também fazê-lo de noite. Esse controle ocorre aos 2/3 anos de idade mas se for até aos 5 anos não é considerado problemático porque as crianças não se desenvolvem todas ao mesmo tempo, há diferenças entre elas. É normal que as crianças molhem a cama de vez em quando, especialmente quando são mais novas. Fazer chichi na cama uma vez ou outra não é considerado um problema. A enurese só é vista como uma dificuldade a ser tratada, quando a criança tem mais de 5 anos, faz chichi na cama duas ou mais vezes por semana, durante pelo menos três meses de noite ou de dia.

Para além de um constrangimento para os pais, esta disfunção limita as actividades sociais da criança, em vários aspectos, podendo levar a criança a isolar-se. A enurese é a emissão repetida de urina, durante o dia ou durante a noite, na cama ou nas roupas, em crianças com 5 anos de idade. Na maioria dos casos é involuntária, mas por vezes poderá ser intencional.

A enurese não pode ser causada por uma doença orgânica como espinha bífida, diabetes ou bexiga neurogénica: nesses casos, as perdas de chichi são classificadas como incontinência urinária. As causas da enurese nem sempre são fisiológicas mas sim psicológicas, ao contrário daquilo que é incutido aos pais.

O risco de uma criança poder vir a apresentar enurese aumenta se o seu pai ou a sua mãe também passaram pela mesma situação em criança, se faleceu um familiar muito próximo, se os pais se estão a divorciar, ou ainda, se nasceu um irmão. Esta “incontinência” poderá ter diversas causas, que são diferentes de caso para caso, que podem ser hereditárias e emocionais, uma vez que os aspectos emocionais se transmitem através da relação entre pais e filhos.

Factores como a ansiedade e o stress estão na origem da enurese nocturna, mas quase sempre tem causas relacionais: uma mãe deprimida e pouco disponível, mães ansiosas e angustiadas, pais demasiado autoritários, entre outros aspectos relacionais. A incapacidade da criança conter a angústia faz com que não controle os esfíncteres, deixando fluir de uma forma simbólica aquilo que não consegue conter. Mães e pais ansiosos contribuem para a ansiedade dos filhos que pode levar à enurese mais tarde. Muitas vezes também funciona como chamada de atenção para uma mãe pouco atenta, ou de retaliação para pais autoritários.

É importante que os pais se dirijam, numa primeira consulta, a um pediatra para excluir a hipótese de ser alguma malformação e a um psicoterapeuta de seguida, com o objectivo de ajudar os filhos a superarem a enurese. É importante que a criança se sinta motivada para melhorar, podendo os pais em casa também ajudarem, como por exemplo, lembrarem a criança de ir à casa de banho antes de dormir, não falar sobre o assunto a outras pessoas quando a criança está presente, não envergonhar nem castigar a criança, dar-lhe banho antes de ir para a escola de maneira a que o odor não seja alvo de gozo por parte dos colegas e evitar o uso de fraldas, o que provocaria um retrocesso na criança.

Grande parte dos problemas de enurese resolvem-se com algum tempo de psicoterapia da criança e apoio aos pais em simultâneo (feito pelo mesmo psicólogo que faz a psicoterapia) levando ao bem-estar da criança e da família.

A ANSIEDADE NORMAL E A ANSIEDADE PATOLÓGICA.....

A ansiedade é uma emoção normal que existe em todos os seres humanos e de extrema importância para a sobrevivência. É com a ansiedade que nós aprendemos a proteger-nos e aos nossos filhos. Ficamos ansiosos quando antevemos o perigo de sermos assaltados, agredidos física ou verbalmente, dos nossos filhos serem atropelados na rua, entre muitas outras situações em que a ansiedade está presente. Portanto, a ansiedade é uma emoção reguladora da sobrevivência da espécie e como tal através da sua acção o ser humano aprende a defender-se do perigo. Esta é a função normativa da ansiedade que se estiver regulada desaparece rapidamente e actua sobretudo como estimulante, ou seja, o ser humano precisa de manter níveis de ansiedade normal, para que consiga efectuar tarefas de qualquer natureza. Quando o homem deixa de conseguir regular a ansiedade é porque ela se tornou numa ansiedade patológica, logo fora do controlo da pessoa.

O que é que causa a ansiedade?

As dificuldades da vida são normalmente o factor desencadeante da ansiedade patológica e nos casos agudos da angústia. Além disso, as dificuldades pessoais de inserção na sociedade, os conflitos internos do domínio afectivo, emocional e sexual podem conduzir a uma sintomatologia ansiosa. As investigações indicam que toda a pessoa que sofre de ansiedade grave tem um profundo sentimento de desamparo psíquico oriundo de relações parentais pouco seguras ou de uma insegurança total, portanto, o que subsiste é o sentimento de desamparo e sentimentos depressivos.

Há relação entre ataque de pânico, fobias e ansiedade?

Claro que há. A fobia é um medo irracional de um objecto/animal ou situação. Os ataques de pânico são uma manifestação aguda de angústia sem causa aparente declarada, que podem paralisar um indivíduo através da sensação de asfixia ou medo de morrer. Todo este conjunto de sintomas não são mais que expressões diferentes de ansiedade.

Há alguma relação entre ansiedade e depressão?

A ansiedade faz parte do quadro clínico da depressão e está associada às alterações de humor e aos estados depressivos. Podemos assim dizer que todas as pessoas que sofrem de depressão têm graus mais ou menos intensos de ansiedade, assim como quem sofre de ansiedade está deprimida ou em vias de deprimir.

Quais são os sintomas da ansiedade grave?

A ansiedade é acompanhada de vários sintomas físicos: aceleração respiratória, alteração do batimento cardíaco, xixis frequentes, diarreia frequente, desfalecimento das pernas, palidez, contracção ou relaxamento do músculo facial, sudação das palmas das mãos (resposta galvânica da pele), sudação de todo o corpo, sensação de vertigem.

Como é que a ansiedade evolui de normal para patológica?

Quando a pessoa já não consegue controlar as emoções e sente-se num estado de ansiedade generalizado, ou seja, em todas as situações da sua vida quotidiana. As emoções descontrolam-se, o cérebro deixa de produzir neurotransmissores e a ansiedade instala-se de forma generalizada.

O que é e como se manifesta a ansiedade generalizada?

A Ansiedade Generalizada manifesta-se por um estado de tensão, duma inquietude permanente, sem que algum acontecimento exterior o possa explicar. São pessoas que estão permanentemente em sobressalto e sofrem com isso. O sintoma-chave é uma ansiedade ou um medo não realista, e excessivo, face a acontecimentos futuros. As queixas somáticas são: dores de estômago, dores de cabeça (cefaleias), diarreia, suores e transpiração excessiva, vertigens.... Esta psicopatologia torna-se um handicap porque torna a vida complicada e difícil de ser vivida, nomeadamente no quotidiano, no trabalho e nas relações pessoais. Estima-se que a sua prevalência seja de 3 a 7%, com uma incidência mais elevada nos filhos mais velhos e nos filhos únicos. São pessoas muito conscienciosas e que têm necessidade de serem tranquilizadas permanentemente. A ansiedade generalizada evolui para doença: transforma-se em fobias e obsessões/compulsões.

Tratamento das ansiedades

Sofrer de perturbação da ansiedade não é nenhuma banalidade nem uma fatalidade. Os tratamentos para cada tipo de ansiedade variam e são estabelecidos em função da natureza do problema (fobias, obsessões, pânico, etc.) e estabelecidos em função da personalidade do sujeito que as sofre. Podemos encontrar ansiedades que se exprimem por outros tipos de sintomas como por exemplo, no caso de homens com ejaculação precoce, ou com impotência sexual, ou casais que há muito tempo tentam ter um filho, etc., depois de se terem realizados os despistes e exames médicos necessários e ter-se verificado a ausência de efeitos fisiológicos, verifica-se que a ansiedade e a perturbação emocional são um factor enorme e responsável, na manutenção dessas dificuldades. Ou ainda, pessoas que encontram no álcool, ou nas drogas, um escape para verem as suas angústias e preocupações aliviadas e acabam por entrar num esquema traiçoeiro onde num primeiro momento as utilizam como qualquer coisa que ajuda a ficar mais calmo e que até dá prazer, mas mais tarde num esquema de dependência. Os exemplos podem ser vários, mas o importante a saber é que uma grande parte das ansiedades patológicas são curáveis, outras serão susceptíveis de melhoramentos consideráveis que permitem, na generalidade, devolver às pessoas uma vida normal. O tratamento é combinado na maioria das situações, ou seja, com terapia medicamentosa (ansioliticos e antidepressivos) e psicoterapia em simultâneo. Saliento que só a medicação não resolve o problema, é sempre necessário fazer a psicoterapia. O objectivo da medicação é ajudar a psicoterapia.

A PERTURBAÇÃO BIPOLAR.....

Cerca de 1% da população portuguesa sofre de perturbação bipolar. É uma doença que altera as emoções de tal forma que pode conduzir à perda do emprego, à perda das ligações familiares e sociais, ao divórcio, ao suicídio e ao sofrimento dos doentes e suas famílias. A Depressão não é causada por uma fraqueza pessoal, ou por falta de controlo - é uma doença que pode ser tratada com fármacos e psicoterapia em simultâneo, sendo esta última essencial ao processo de tratamento.

Estima-se que 25 a 30% das pessoas com sintomas da perturbação bipolar não estejam ainda diagnosticadas, até porque muitos doentes se recusam a aceitar ajuda médica, sobretudo quando se encontram na fase de euforia.

O diagnóstico da perturbação bipolar não se faz por vezes na altura própria. Mesmo que simplificado, o reconhecimento das peculiaridades da pertubação bipolar diminuem a frustração dos doentes e dos que os rodeiam, possibilitando uma melhor qualidade de vida através de tratamento médico e psicoterapeutico adequado. A família e os amigos aprendem a reconhecer as oscilações do humor, pois a pessoa nega que esteja errada.

A perturbação bipolar é uma doença psiquiátrica conhecida por Perturbação Maníaco-Depressiva. É caracterizada por elevadas alterações do humor, com crises repetidas de depressão e de “mania”. Estas perturbações são repercutidas nas sensações, emoções, ideias e comportamentos, com consequências para a saúde e para a personalidade.

Uma crise pode durar alguns dias ou vários meses. Os períodos de estabilidade entre crises podem durar dias, meses ou anos. Também a previsão das crises varia consoante a pessoa. Umas terão uma ou duas crises durante a vida, outras caem repetidas vezes em certas alturas do ano (caso não faça tratamento) e há ainda outras que têm mais do que quatro crises por ano, são os ciclos rápidos.

A doença pode começar durante ou depois da adolescência, especialmente entre os 20 e os 30 anos e afecta ambos os sexos em percentagem idêntica.

Fase maníaca

A “mania” manifesta-se em estados de humor elevado, eufórico ou irritável. A pessoa sente-se alegre, altiva, sociável, inteligente e criativa. A elevação progressiva do humor e a aceleração psíquica podem trazer consigo alguns ou todos os sintomas:
* Irritabilidade extrema (a pessoa torna-se exigente quando os outros não pactuam com as suas vontades);
* Crença não realista das suas capacidades e poderes;
* Capacidade de julgamento pobre;
* Comportamento provocante, inoportuno e agressivo;
* Negação do óbvio, de que está errado;
* Energia elevada (hiperactividade), reduzindo a necessidade de sono e aumentando o abuso de álcool, medicamentos e drogas para dormir;
* Auto-estima elevada;
* Repentinas e imprevisíveis alterações emocionais (a fala é rápida, mudança frequente de assunto, nunca acabando o primeiro, os pensamentos aceleram-se);
* Reacções excessivas e interpretações erradas de acontecimentos, irritação e dificuldade de enfrentar comentários banais;
* Dificuldade de assimilar ideias, transmitindo-as de modo errado;
* Maior interesse por diversas actividades;
* Aumento da vontade sexual;
* Não reconhecimento da doença, tenta recusar o tratamento;
* Culpar os outros pelo que ocorre de mal, inclusive pela própria doença;
* Perda da noção da realidade;
* Incoerência de actos.

Fase depressiva

A depressão manifesta-se pela tristeza e pelo desespero. Deste modo, os sintomas são:
* Obsessão com pensamentos negativos, não conseguindo afastá-los;
* Preocupação com fracassos ou incapacidades;
* Sentimentos de inutilidade, culpa excessiva;
* Perda de interesse ou prazer em actividades quotidianas (trabalho, hobbies, pessoas, familiares, amigos e sexo);
* Pensamento lento, esquecimento, dificuldade de concentração e em tomar decisões;
* Perda de energia, sentimento de fadiga ou agitação e inquietação;
* Preocupação excessiva com queixas físicas;
* Alterações do apetite e do peso;
* Dificuldades em dormir, ou dormir excessivamente;
* Choro fácil ou vontade de chorar sem ser capaz;
* Pensamentos repetitivos de morte ou suicídio;
* Uso excessivo de bebidas alcoólicas ou de outras substâncias.

Podem existir crises mistas, de depressão e de “mania”. É o caso da Depressão Tipo I. O tipo II não apresenta episódios de mania, mas de hipomania com depressão (crises depressivas graves e fases leves de elevação do humor). Há uma tendência para os pacientes fazerem várias crises de um tipo e poucas de outro; há doentes bipolares que nunca tiveram fases deprimidas e há deprimidos que só tiveram uma fase maníaca enquanto as depressivas foram numerosas. A depressão e a “mania” graves podem ser acompanhadas por períodos de psicose que incluem alucinações (sentir, cheirar, observar coisas que não existem) e delírios (falsas crenças baseadas no ilógico, apesar da existência da evidências do contrário).

O melhor conhecimento, reconhecimento da doença e dos aspectos gerais de tratamento visam permitir uma colaboração mais activa entre todos (doente, família, médico psiquiatra, médico de família e outros técnicos de saúde). Trata-se da sua saúde e da sua vida.

Causas

As causas são multifactoriais. Uma infância pobre em afectos, mudanças e perdas afectivas, insegurança estão na base da génese da perturbação bipolar. Depois existem várias teorias biológicas e genéticas que apontam para a mudança química que existe no cérebro aquando das crises. Sabemos que as adversidades da vida, constantes e intensas, vão trazendo ao sujeito graves prejuízos ao nível da sua vida afectiva. Ao longo do tempo a química cerebral modifica-se e cada vez surgem mais episódios de bipolaridade. Quanto mais tempo passa mais difícil se torna estabilizar o humor. Há que ter em atenção as fases agudas e a estratégia de prevenção das crises. Depois de uma crise um doente volta ao normal, pelo que é necessário prevenir as crises.

Tratamento

Os tratamentos farmacológicos disponíveis (estabilizadores do humor, antidepressivos e antipsicóticos) e a psicoterapia reduzem o sofrimento causado evitando as complicações devastadoras. O médico psiquiatra pode levar algum tempo até conseguir o tratamento adequado ao paciente. A Psicoterapia, o diálogo sobre as emoções e a depressão com um profissional qualificado, em associação com o tratamento farmacológico, proporciona suporte, educação e orientação para o doente e sua família. Tenta conseguir a obtenção de novos comportamentos através da elaboração das emoções. No caso da perturbação bipolar é necessário uma intervenção conjunta de medico psiquiatra e psicoterapeuta.

A ANOREXIA NERVOSA.....

O corpo da mulher como ideal de beleza universalmente aceite tem sofrido, ao longo dos tempos, diversas imagens com aspectos mais ou menos valorizados. Esses aspectos estiveram sempre relacionados com a quantidade de massa adiposa considerada bela para a época. Em épocas passadas as formas cheias das mulheres aparecem muito valorizadas nas pinturas renascentistas. As artes, nomeadamente a pintura e literatura, teceram muitas obras acerca da sua beleza.

Actualmente, a relação entre a mulher e o seu corpo tornou-se mais evidente, uma vez que a exigência de um corpo magro, esquálido por vezes, entendido como um padrão de beleza exigido pela moda sobretudo, que apenas fabrica roupa para pessoas magras, recai principalmente sobre o sexo feminino. A preocupação com o corpo tornou-se uma manifestação frequente nos relatos clínicos, centrando-se na imagem corporal e se estão mais ou menos gordas. Por consequência vem a preocupação com a comida e uma batalha com exercícios físicos, dietas e contagem de calorias. Evidentemente que nem todas as mulheres que fazem isto sofrem de anorexia nervosa, no entanto existem as que vivem uma autêntica tirania da magreza, suprimindo completamente os alimentos, causando sérios danos físicos e psíquicos e imenso sofrimento para elas e para a família. Se são os ditames da moda propagados pela comunicação social ligada ao meio os responsáveis pela disseminação desta imagem de beleza que podemos apelidar de cadavérica, ou uma doença que se esconde por detrás de um padrão de beleza, o facto é que é uma doença mortal quando não tratada. Podemos descrevê-la através de características bem especificas. A anorexia nervosa tem início no princípio da adolescência e atinge na maioria o sexo feminino, existindo também nos rapazes mas em menor percentagem. É reconhecível pela insistência que as pacientes apresentam em manter um peso abaixo do padrão de normalidade, que é o resultado da privação alimentar apesar de sofrerem terrivelmente com a fome. Esta doença começa geralmente a partir de uma dieta em que são restringidos muitos alimentos considerados “ alimentos que engordam”, conduzindo com o decurso da doença a uma perda de peso muito acentuada apresentando a adolescente ou mulher jovem um corpo esquálido e quase andrógino. Aos poucos passa-se a viver exclusivamente em função da dieta, da comida, do peso e da forma corporal, o que dificulta o convívio social, tornando-se este por vezes inexistente.

A intensa ligação com a comida (patológica é claro), em alguns casos, torna o hábito alimentar cada vez mais secreto, bizarro e ritualizado, ao ponto de por vezes, ainda no início ninguém se aperceber do problema a não ser pelo facto da adolescente ou mulher estar cada vez mais magra. Em estados muito avançados as pacientes deixam de fazer a sua vida normal, quase sempre por incapacidade física, levando a internamentos muitas vezes com estados muito debilitados, que podem ser fatais, pois o corpo desnutrido deixa de funcionar levando ao colapso de órgãos vitais, tais como o coração e os rins. Quando as adolescentes resistem à vontade de ingerir comida, tal é sentido como um triunfo, mas se pelo contrario não o conseguem fazer quer por imposição da família, ou aspectos sociais, então sentem-se tristes e deprimidas, levando a hábitos de esconder comida para não a ingerirem, não se sentarem à mesa com a família com a desculpa de estudar e irem comer para o quarto ou outros afazeres urgentes, ou então na impossibilidade de restringir os alimentos provocarem o vómito para controlar o peso.

Esta doença não é um produto dos dias actuais ao contrário do que se possa pensar, data de 1689 a primeira descrição na literatura médica sobre pessoas que rejeitavam alimentos, no entanto devido à facilidade de comunicação é hoje mais visível. Outras descrições são mais anteriores datando à idade média, da qual existem documentos referentes aos jejuns de raparigas que na tentativa de escaparem a casamentos forçados se privavam de alimentação ao ponto de perderem os contornos do corpo e caírem doentes e assim fazerem o noivo desistir do enlace.

A ideia que a anorexia nervosa é uma doença de causas orgânicas tem sido passada de alguma forma por quem encontra explicação para tudo no biológico. No entanto está provado desde há algum tempo que a anorexia nervosa é uma doença psicológica que se traduz depois em manifestações físicas e psicológicas. Tal confusão, que traduz a anorexia nervosa numa doença apenas do comportamento alimentar, pode ser extremamente perigoso, pois pode conduzir à eliminação dos sintomas físicos, pela ingestão de alimentos e descurar a parte psicológica verdadeira causadora da doença. A anorexia nervosa é uma doença do foro emocional, em que os afectos estão perturbados por isso incapazes de deixarem o corpo funcionar, levando a comportamentos de oposição pela retirada voluntária dos alimentos, virando ao que parece uma raiva surda contra si próprias que faz as adolescentes definharem perante os olhos dos pais e amigos, como se através de um corpo magro exibissem o sofrimento e o horror da sua vida interna. É de salientar que esta doença requer ajuda especializada, envolvendo uma equipa multidisciplinar (médicos psiquiatras e psicoterapeutas) onde o acompanhamento psicoterapêutico é fundamental para o tratamento desta doença. Quando não tratada pode levar à morte.

O ALCOOLISMO: PREENCHER A FALHA AFECTIVA.....

A origem do termo deve-se ao médico sueco Magnus Huss, que o propôs em 1848. O conceito de alcoolismo foi o primeiro passo que permitiu o início das investigações sobre o mesmo, a seguir á Segunda Guerra Mundial. Em 1960 foi introduzido pela primeira vez o conceito de doença associada ao consumo de álcool privilegiando a repercussão negativa, a nível pessoal e social, sendo definida como uma doença progressiva, com um curso fixo e previsível uma vez atingida a dependência, sublinhando a perda de controlo sobre a quantidade de álcool ingerida, um dado indicador para o diagnóstico desta doença.

O alcoolismo não pode ser entendido apenas por causas genéticas ou físicas. O alcoolismo deve ser visto como um sintoma de algo mais profundo ao nível psicológico, encerrando sempre um sofrimento psíquico enorme. O abandono social e pessoal é a primeira causa de degradação da vida da pessoa consumidora. A família quase nunca suporta conviver com o alcoólico, quando este passa para a fase em que consome diariamente grandes quantidades para conseguir um estado de bem-estar psicológico, efémero, pois desaparece rapidamente e que conduz a mais consumo. Existe muito alcoolismo escondido sob um beber social e cultural aceite socialmente. O admitir que existem hábitos excessivos de consumo é sempre um passo para a procura de ajuda. A incapacidade para reconhecer isso leva a uma degradação contínua, que provoca a morte e arrasta famílias num sofrimento atroz.

O alcoolismo é um sintoma de um desenvolvimento traumático na relação afectiva, desenvolvida com as figuras presentes na vida do sujeito. É esta a chave do diagnóstico, a explicação do nó que ata a vida da pessoa ao consumo de álcool, de forma compulsiva, passando este a preencher o lugar das relações com outros e dos afectos, sempre ausentes da vida pessoal do consumidor compulsivo. O álcool preenche então a falha afectiva que se gerou algures numa fase da vida do sujeito, quase sempre na infância mais precoce.

A pessoa consome álcool para se sentir bem e desinibida, tem medo da intimidade relacional e uma auto-estima muito débil ou inexistente que se alimenta e cresce na medida da ingestão do líquido. A bebida alcoólica é investida como se fosse uma pessoa e passa a funcionar na vida do sujeito alcoólico como se de facto se tratasse de uma presença. O significado do álcool é então, a partir de certo momento em que as relações falharam, amores, amigos e companheiros, a constituição de um valor relacional, ou seja, é um substituto do lugar do outro, na relação afectiva.

O néctar dos deuses como lhe chamaram os gregos, não é um mal social, pois o problema não reside nele, mas sim em quem o bebe em excesso, passando o seu consumo por uma cultura em que se aprende a apreciar e beber de forma adequada como refere Coimbra de Matos, psicanalista e apreciador do referido néctar.

É possível tratar esta doença. Numa fase inicial passa pela abstinência e desintoxicação com terapia medicamentosa e acompanhamento médico. Depois, assim que estiverem reunidas essas condições, ou em simultâneo, segue-se um tratamento psicoterapêutico, esse sim, transformador da relação que a pessoa tem com o álcool, substituindo-se aos poucos em verdadeiras relações, humanas e afectivas.