"O afecto correspondente à melancolia é o luto ou pesar, ou seja, o anseio por alguma coisa que se perdeu". Sigmund Freud (1895)
A tristeza é uma reacção normal e saudável a qualquer infortúnio. A maioria, se não todos, dos episódios mais intensos de tristeza é provocada pela perda, ou pela previsão da perda, seja de uma pessoa amada, de lugares familiares e queridos, ou de papéis sociais. Uma pessoa triste sabe quem (ou o que) perdeu e anseia pelo seu retorno. Além disso, provavelmente buscará ajuda e consolo em algum companheiro em quem confia e, em alguma parte da sua mente, acreditará que com o tempo e assistência conseguirá recuperar-se, ainda que apenas em parte. Ainda assim, por vezes poder-se-á sentir deprimido durante algum tempo. A pessoa mentalmente sadia consegue atravessar fases de depressão e desorganização, delas saindo, depois de um período não excessivamente longo, com o comportamento, pensamento e sentimento já em vias de reorganização para interacções de um novo tipo. O senso de competência e o valor pessoal (auto-estima) permanece intacto e o sujeito prossegue a sua vida.
O que explica então os graus mais ou menos intensos de desespero que são característicos dos distúrbios depressivos, e o sentimento de abandono, de rejeição e de desamor, experiementados com tanta frequência pelos pacientes como tantos autores desde Freud tem vindo a descrever?
Seligman (1973) chama a atenção para as razões pelas quais uma pessoa, tendo sido frequentemente mal sucedida na solução de certos problemas, sente-se desamparada e, mesmo quando enfrenta um problema que tem capacidade de resolver, tende a não fazer qualquer tentativa nesse sentido. Se tentar, se tiver êxito, ainda assim pode considerar esse êxito como simples sorte. Esse estado de espírito, que Seligman designa como “desamparo aprendido”, é responsável, segundo ele, pelo desamparo presente nos distúrbios depressivos.
Na maioria das formas dos distúrbios depressivos, inclusive o luto crónico, a principal questão em relação à qual uma pessoa se sente desamparada é na sua capacidade de estabelecer e manter relações afectivas. O sentimento de desamparo pode, nesse caso, ser atribuído às experiências vividas pela pessoa na sua família de origem durante a infância e que provavelmente continuam até uma fase adiantada da adolescência. Temos assim três tipos de experiências:
1 - É provável que a pessoa tenha passado pela experiência amarga de nunca ter estabelecido uma relação estável e segura com os seus pais, apesar de ter feito repetidos esforços para isso, inclusive de se ter esforçado ao máximo para atender às exigências deles e talvez também às expectativas pouco realistas que tenham formulado a seu respeito. Essas experiências infantis fazem com que a pessoa desenvolva uma acentuada tendência a interpretar qualquer perda que possa sofrer mais tarde como mais um dos seus fracassos em estabelecer e manter uma relação afectiva estável.
2 - É provável que, muitas vezes, tenham dito à pessoa na sua infância, que ela era indigna de ser amada ("Portaste-te mal, não gosto de ti!"), ou incoveniente ("Não chateis, sai daqui!"), ou incompetente ("Já partiste isso, não tens jeito para nada!"). Se passou por essas experiências de forma continuada desde a infância até à adolescencia, poderá ter desenvolvido um modelo de si mesmo de ser uma pessoa indigna de ser amada, indesejada, e de um modelo de figuras de apego (pais ou substitutos) como sendo inacessíveis, ou rejeitadoras e punitivas. Sempre que uma pessoa sofre uma adversidade, longe de achar que os outros podem ajudá –la, espera deles hostilidade e rejeição. A maioria das pessoas sujeitas a estes modelos deprimem ainda durante a infância e a adolescência, são o caso dos meninos “hiperactivos” ou dos adolescentes com maus resultados escolares e a caminho da delinquência.
3 - Num terceiro caso, houve mesmo uma perda real de um dos progenitores ou dos dois durante a infância, acarretando-lhe experiências muito desagradáveis ao nivel da segurança afectiva (retirada das familias, adopção, entrega a familias de acolhimento, abandono e morte dos pais) quando as figuras substitutas não conseguem ser afectivas e seguras para que a vinculação se estabeleça novamente.
O contacto com experiências dos tipos aqui descritos, contribui para explicar o desânimo aprendido da pessoa deprimida. Só uma nova experiência de vinculação a alguém que seja seguro, poderá ser reparadora. Essa experiência tem que ser no âmbito da psicoterapia. O procurar ajuda atempadamente poderá minimizar de imediato um sofrimento inimaginável para as pessoas sadias. Daí a dificuldade da família em perceber na maioria das vezes os sentimenos e o comportamento das pessoas deprimidas. No caso das crianças e adolescentes, quanto mais cedo iniciar uma psicoterapia, mais probabilidades têm de na adultez virem a ter uma vida normal e sem sofrimento. No caso dos adultos, ao fim de algumas sessões, o alívio dos sintomas tende a instalar-se e as melhorias na qualidade de vida surgem dia-a-dia. No entanto nem todas as pessoas deprimidas procuram ajuda, precisamente pelo “desânimo aprendido”, então se as figuras da sua infância não o souberam amar (não significa que não tenham amado, foi a leitura que a pessoa fez, mas no entanto por vezes não amaram mesmo), como é que a relação terapêutica pode ser boa e reparadora? Neste caso o papel dos familiares é fundamental. Quando a pessoa precisa de ajuda e resiste a ir a uma consulta de psicologia clínica, os familiares poderão marcar consulta em conjunto (pais/filhos pequenos ou adolescentes, maridos/esposas, etc.), sendo a consulta para a família, deixando ao psicoterapeuta a tarefa de “convencer” a pessoa a iniciar um tratamento. Volto a referir que os medicamentos antidepressivos só em algumas situações se aplicam e que só a psicoterapia ajuda a resolver o problema. O que acontece, na maioria das pessoas deprimidas, são a frequência de consultas de psiquiatria só com intervenções farmacológicas e um arrastar da doença anos a fio nas mãos de profissionais, ou mal informados, ou a acreditarem que resolvem tudo. Cabe à família muitas vezes, encaminhar os doentes incapazes de tomarem uma decisão, porque assim o aprenderam quando lhe foi incutido um sentimento de inutilidade e de incapacidade.
A tristeza é uma reacção normal e saudável a qualquer infortúnio. A maioria, se não todos, dos episódios mais intensos de tristeza é provocada pela perda, ou pela previsão da perda, seja de uma pessoa amada, de lugares familiares e queridos, ou de papéis sociais. Uma pessoa triste sabe quem (ou o que) perdeu e anseia pelo seu retorno. Além disso, provavelmente buscará ajuda e consolo em algum companheiro em quem confia e, em alguma parte da sua mente, acreditará que com o tempo e assistência conseguirá recuperar-se, ainda que apenas em parte. Ainda assim, por vezes poder-se-á sentir deprimido durante algum tempo. A pessoa mentalmente sadia consegue atravessar fases de depressão e desorganização, delas saindo, depois de um período não excessivamente longo, com o comportamento, pensamento e sentimento já em vias de reorganização para interacções de um novo tipo. O senso de competência e o valor pessoal (auto-estima) permanece intacto e o sujeito prossegue a sua vida.
O que explica então os graus mais ou menos intensos de desespero que são característicos dos distúrbios depressivos, e o sentimento de abandono, de rejeição e de desamor, experiementados com tanta frequência pelos pacientes como tantos autores desde Freud tem vindo a descrever?
Seligman (1973) chama a atenção para as razões pelas quais uma pessoa, tendo sido frequentemente mal sucedida na solução de certos problemas, sente-se desamparada e, mesmo quando enfrenta um problema que tem capacidade de resolver, tende a não fazer qualquer tentativa nesse sentido. Se tentar, se tiver êxito, ainda assim pode considerar esse êxito como simples sorte. Esse estado de espírito, que Seligman designa como “desamparo aprendido”, é responsável, segundo ele, pelo desamparo presente nos distúrbios depressivos.
Na maioria das formas dos distúrbios depressivos, inclusive o luto crónico, a principal questão em relação à qual uma pessoa se sente desamparada é na sua capacidade de estabelecer e manter relações afectivas. O sentimento de desamparo pode, nesse caso, ser atribuído às experiências vividas pela pessoa na sua família de origem durante a infância e que provavelmente continuam até uma fase adiantada da adolescência. Temos assim três tipos de experiências:
1 - É provável que a pessoa tenha passado pela experiência amarga de nunca ter estabelecido uma relação estável e segura com os seus pais, apesar de ter feito repetidos esforços para isso, inclusive de se ter esforçado ao máximo para atender às exigências deles e talvez também às expectativas pouco realistas que tenham formulado a seu respeito. Essas experiências infantis fazem com que a pessoa desenvolva uma acentuada tendência a interpretar qualquer perda que possa sofrer mais tarde como mais um dos seus fracassos em estabelecer e manter uma relação afectiva estável.
2 - É provável que, muitas vezes, tenham dito à pessoa na sua infância, que ela era indigna de ser amada ("Portaste-te mal, não gosto de ti!"), ou incoveniente ("Não chateis, sai daqui!"), ou incompetente ("Já partiste isso, não tens jeito para nada!"). Se passou por essas experiências de forma continuada desde a infância até à adolescencia, poderá ter desenvolvido um modelo de si mesmo de ser uma pessoa indigna de ser amada, indesejada, e de um modelo de figuras de apego (pais ou substitutos) como sendo inacessíveis, ou rejeitadoras e punitivas. Sempre que uma pessoa sofre uma adversidade, longe de achar que os outros podem ajudá –la, espera deles hostilidade e rejeição. A maioria das pessoas sujeitas a estes modelos deprimem ainda durante a infância e a adolescência, são o caso dos meninos “hiperactivos” ou dos adolescentes com maus resultados escolares e a caminho da delinquência.
3 - Num terceiro caso, houve mesmo uma perda real de um dos progenitores ou dos dois durante a infância, acarretando-lhe experiências muito desagradáveis ao nivel da segurança afectiva (retirada das familias, adopção, entrega a familias de acolhimento, abandono e morte dos pais) quando as figuras substitutas não conseguem ser afectivas e seguras para que a vinculação se estabeleça novamente.
O contacto com experiências dos tipos aqui descritos, contribui para explicar o desânimo aprendido da pessoa deprimida. Só uma nova experiência de vinculação a alguém que seja seguro, poderá ser reparadora. Essa experiência tem que ser no âmbito da psicoterapia. O procurar ajuda atempadamente poderá minimizar de imediato um sofrimento inimaginável para as pessoas sadias. Daí a dificuldade da família em perceber na maioria das vezes os sentimenos e o comportamento das pessoas deprimidas. No caso das crianças e adolescentes, quanto mais cedo iniciar uma psicoterapia, mais probabilidades têm de na adultez virem a ter uma vida normal e sem sofrimento. No caso dos adultos, ao fim de algumas sessões, o alívio dos sintomas tende a instalar-se e as melhorias na qualidade de vida surgem dia-a-dia. No entanto nem todas as pessoas deprimidas procuram ajuda, precisamente pelo “desânimo aprendido”, então se as figuras da sua infância não o souberam amar (não significa que não tenham amado, foi a leitura que a pessoa fez, mas no entanto por vezes não amaram mesmo), como é que a relação terapêutica pode ser boa e reparadora? Neste caso o papel dos familiares é fundamental. Quando a pessoa precisa de ajuda e resiste a ir a uma consulta de psicologia clínica, os familiares poderão marcar consulta em conjunto (pais/filhos pequenos ou adolescentes, maridos/esposas, etc.), sendo a consulta para a família, deixando ao psicoterapeuta a tarefa de “convencer” a pessoa a iniciar um tratamento. Volto a referir que os medicamentos antidepressivos só em algumas situações se aplicam e que só a psicoterapia ajuda a resolver o problema. O que acontece, na maioria das pessoas deprimidas, são a frequência de consultas de psiquiatria só com intervenções farmacológicas e um arrastar da doença anos a fio nas mãos de profissionais, ou mal informados, ou a acreditarem que resolvem tudo. Cabe à família muitas vezes, encaminhar os doentes incapazes de tomarem uma decisão, porque assim o aprenderam quando lhe foi incutido um sentimento de inutilidade e de incapacidade.








